A boca sorri em silêncio, o cérebro tenta parar o tempo,
talvez sejamos nós dois, talvez só não sejamos mais, e não precisa fazer
sentido, entreguei o caso para o acaso. Já perdi a pose, e rio sem notar,
tua gargalhada virou melodia, e desatei o nó que me prendia, num desatino, num
desafio. Aceito cada escolha, você não pode escolher quem vai te ferir, quem
vai te fazer chorar ou te fazer querer reinventar-se, você não pode fugir sem
saber o motivo.
Já não sei manter a elegância, ou segurar os verbos que
antes eram meticulosamente escolhidos, agora eles fluem, transbordam. Já não
uso as mesmas roupas, não me visto de saudade, e agora parece tudo tão
familiar. Mas eu não te conheço, só andei com você uma vez num sonho, e eu sei
o que irá fazer e temo isso, do jeito que fez num sonho. Não quero cometer a loucura de
acordar agora, tenho medo da lucidez da minha mente quando despertar-se. Outra
mente e outra alma, outra lágrima e outro grito, não me deixe acordar agora, e
se assim for, me beije, no silêncio.

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